A Mulher que Matou os Peixes, de Clarice Lispector

Toda terça-feira é dia de novo texto comentado em Além das Margens. Hoje os fragmentos foram retirados da narrativa A mulher que matou os peixes, de Clarice Lispector.

Ler Clarice sempre impressiona. A escolha por temas que giram em torno das questões existenciais: vida, morte, solidão, autoconhecimento, entendimento, perspectivas, culpa, entre outros, tomam uma dimensão única que angustia e abala os sentidos. Não é fácil ficar imune ao estilo questionador de Clarice.
Vale notar que muitos desses elementos, de alguma forma, também se manifestam na literatura para crianças e jovens.
Em primeira pessoa, logo no início, a narradora apresenta-se como ré confessa:

“Essa mulher que matou os peixes infelizmente sou eu.”

Assim, sucedem-se várias e diferentes histórias de bichos experimentadas pela narradora: histórias com baratas, gatos, macacos, cachorros, coelhos, peixes, entre outros tantos:

“Vou contar antes umas coisas muito importantes para vocês não ficarem tristes com o meu crime.”

 
 

 

 

Essas pequenas narrativas sobre animais, as quais se configuram como histórias dentro da história, constituem parte determinante de um plano estratégico da narradora, plano que objetiva estabelecer uma relação de empatia entre a narradora e os pequenos leitores, a fim de recuperar a imagem positiva de si perante o outro, e, pelo convencimento, vir a alcançar o perdão de seus leitores, aliviando sua culpa.

Ao longo do texto, a narradora mostra-se muito empenhada na tarefa que impôs a si mesma: convencer o outro de que não é pessoa cruel:

“Logo eu! Que não tenho coragem de matar uma coisa viva! Até deixo de matar uma barata ou outra.”

Dessa forma, busca desfazer a imagem negativa que incidiu sobre ela e estabelecer o vínculo com o leitor. Para tanto, faz uso de um discurso bastante persuasivo:

“Eu queria é que vocês fossem fazer uma visita comigo à ilha de minha amiga. Vocês poderiam tomar banho de mar, caçar bichos, e de noite ir dormir numa rede. Vocês não iam ter medo porque eu ia dormir no mesmo quarto, protegendo cada menino e cada menina.”

Por meio dessas histórias, a narradora vai se revelando ao jovem leitor, àquele a quem ela oferece o seu destino, submetendo-se a um julgamento. Seu discurso de defesa não é inocente, pelo contrário, é persuasivo, carregado de intencionalidades, sem ser desonesto. É sincero em seus objetivos. A narradora domina a arte da escritura, conhece a alma humana e sabe como envolver o outro pelo diálogo:

“Sabem de uma coisa? Resolvi agora mesmo convidar meninos e meninas para me visitarem em casa. Vou ficar tão feliz que darei a cada criança uma fatia de bolo, uma bebida bem gostosa, e um beijo na testa.”

Da mesma forma, torna conhecida aos pequenos leitores a sua história, acreditando no potencial infantil de dialogar com a narrativa, e fazer avaliações. Concede, enfim, às crianças o poder de fazerem o julgamento sobre a morte dos peixinhos, as quais podem vir a perdoá-la ou não:

“Vocês me perdoam?”

Muito lindo isso!
Vale a pena conferir:

LISPECTOR, Clarice. A mulher que matou os peixes. Ilustrações Mariana Valente. Rio de Janeiro: Editora Rocco- Pequenos Leitores, 2017.

Deixe seu comentário!

Inscreva-se
Notificação de
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver todos os comentários